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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

FAMÍLIAS APOSTAM EM MÉTODOS DE ENSINO LONGE DAS SALAS DE AULA



A prática é uma ruptura com o modelo tradicional de ensino e pode acontecer 
tanto em casa quanto em espaços alternativos


Fonte: Correio da Bahia (BA)





Pietro, de 5 anos, ficou fascinado com os filhotes da gata de estimação. “Mamãe, como os bichinhos nascem?” foi a deixa para a enfermeira Larissa Moris, 34 anos, de Feira de Santana, buscar explicações na internet para o filho. “Se ele quer comer um bolo, a gente treina matemática, medidas, a diferença de peso entre a farinha e o açúcar...”.

Tratar o aprendizado com naturalidade faz parte do processo de desescolarização adotado para Pietro neste ano e que, segundo dados da Associação Nacional de Ensino Domiciliar (Aned), pode ser realidade para mais de mil famílias no Brasil. A prática é uma ruptura com o modelo tradicional de ensino e pode acontecer tanto em casa quanto em espaços alternativos.

Larissa resistiu em tirar o filho da escola. Só decidiu depois do rótulo de hiperativo que o menino recebeu das professoras. Além disso, Pietro se sentia excluído.

“Não vou dizer que nunca vou botar meu filho na escola. Vou deixar ele escolher. Quando perguntei se não ia se despedir dos amigos, ele disse que não, porque era agredido”, relata.

Com a mudança, colocou em casa um quadro negro e montou uma pequena biblioteca. Parou de trabalhar para educar Pietro. Sem a escola, reduziu os custos do menino em 50%. Para que ele tenha contato com outras crianças, frequenta praças e igrejas.

Em casa ou no colégio, Fábio Schebella, pesquisador e ex-diretor pedagógico da Aned, acha importante pensar no conteúdo ensinado. “É necessário ter cautela e equilibrar o interesse do aluno com suas necessidades. Focar apenas nos desejos pode gerar um déficit no desenvolvimento de conhecimentos essenciais”.

No mês que vem, o Ministério da Educação deve receber uma pesquisa sobre os resultados e impactos do ensino domiciliar em outros países. A ideia é regulamentar a prática que muda a rotina dos pais e questiona a educação formal.

Singular
A escola saiu da vida do paulista Gutto Thomaz quando ele fez 14 anos. Hoje, aos 19, é mágico. A decisão foi tomada junto com a mãe, Ana Thomaz, 45 anos.
Gutto achava desinteressante o modelo de educação formal e Ana, que é educadora, desenvolveu um método específico para o filho. “Você só aprende uma coisa se tiver um desejo genuíno e pessoas dispostas a compartilhar experiências”, garante.

Em casa, Gutto teve aulas de música, artes plásticas, aikido e filosofia, com diferentes professores. Assim, conheceu a mágica. Participou de congressos internacionais e conta que aprendeu mais nas viagens do que na escola.
A psicopedagoga Iris Sá não nega os problemas do ensino formal, mas não vê a opção domiciliar como solução. Ela acredita que o ideal é que os colégios mudem o formato. Como exemplo, cita a Escola da Ponte, em Portugal. “Lá, a criança tem um monitor e tira dúvidas com ele. É autodidata, tem computador, livros, tudo sem sala de aula”.

Gutto não fez amigos no colégio quando era estudante e evita comparar seu conhecimento com os colegas que estavam em sala de aula. “O método de desescolarização é único e diferente para cada um. Esse tipo de comparação só é possível na escola, onde o aprendizado é padronizado”.

Coletivo
A história de Ana e Gutto conseguiu inspirar outros pais. Aqui na Bahia, foi o exemplo decisivo para que o casal Igor Sant’Anna, 33 anos, e Carla de Miranda, 26 anos, tirassem o filho Luan, de 3 anos, da escola. “A educação se faz no dia a dia. Hoje eu acordei e Luan estava com cinco livrinhos na mão porque gosta que a gente leia para ele. Não precisamos tratar o aprendizado dele com ansiedade”, avalia Carla.

Igor é doutorando em Educação e Carla é parteira. Os dois também trabalham como palhaços da Companhia Pé na Terra. Eles conheceram Ana por intermédio de uma amiga. Na época, a educadora vinha à Bahia palestrar em Piracanga, comunidade a 30 minutos de Itacaré (397 km de Salvador) onde a educação acontece de forma livre e experimental.

Na comunidade, a uruguaia Ivana Jauregui, 33 anos, fundou a Escola Livre Inkiri, que funciona há cinco anos. A ideia nasceu com o primeiro filho, quando tinha 20 anos. Ela viajou pelo mundo em busca de um método de educação livre. “Tinha o desejo de ver as crianças mais autônomas”.

Em Piracanga, viu o desejo tomar forma na Inkiri. A escola tem vários espaços para crianças e jovens: marcenaria, cozinha, sala de leitura. Apesar de livre, tem disciplina: as crianças devem respeitar o próximo, guardar os objetos depois de usar e só correr na área externa.

Ivana entende que cada criança aprende a partir de uma curiosidade natural. “Na escola, o aprendizado está enxugado e limitado dentro de uma casinha, com um professor, um quadro e colegas com folhas em branco para responder. Mas a gente não aprende só quatro horas. Aprende o tempo inteiro. Como fica o resto do dia?”, provoca.

Novos espaços
Depois de quatro meses em Piracanga e um estágio na Escola da Ponte, o educador e psicólogo André Garcez fez parceria com a comunidade urbana Casa do Sol Dourado, em Patamares, e criou o Quintal das Crianças, espaço educativo que ainda não é escola.

“Mas temos essa missão de fundar uma escola livre, legalizada. Piracanga está legalizando agora porque foi para o mundo, mas outras escolas também buscam fazer isso”, ressalta Garcez.

Segundo André, a educação que ele e Ivana aplicam pretende mudar os paradigmas da educação formal. Abandonar as expectativas e julgamentos, pilares de boa parte dos métodos escolares tradicionais, e permitir que a criança construa o conhecimento a seu próprio ritmo.

Ercília de Paula, doutora em Educação, não é contra o ensino em diferentes espaços, desde que seja uma necessidade do aluno, como nos casos de crianças hospitalizadas. Mas acredita que eles não substituem o ambiente escolar. Segundo ela, enquanto na escola há convívio com a diferença, fora dela os pais determinam os amigos dos filhos.

Para Ivana, a Inkiri é uma inspiração. “Assim como a gente está se inspirando na Inkiri, eles se inspiraram na Escola da Ponte, em Portugal. Então, não nasceu do nada. Nasceu com uma base e a partir dela eles criaram uma própria forma, que é o que a gente está fazendo aqui”, afirma André Garcez.

Estudo sobre ensino domiciliar vai para o MEC
Uma decisão radical: tirar da escola o filho que cursava a 8ª série, por não confiar nas aulas sobre sexualidade. Esta foi uma das histórias descobertas por Edison Prado durante as pesquisas da sua tese de doutorado em Educação, pela Universidade de São Paulo (USP).

Não há estimativas precisas sobre o número de famílias que adotaram o ensino domiciliar - quando os pais decidem que os filhos serão educados em casa. A Aned estima que cerca de mil famílias adotam essa modalidade, mas a maioria mantém sigilo, por medo de restrições legais. “Existem vários modelos e métodos, cada família acaba decidindo qual o melhor”, afirma Ricardo Iene, consultor de Relações Públicas da Aned.

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), é obrigatória a matrícula de crianças na educação básica a partir dos 4 anos. Não fazer isso pode caracterizar abandono intelectual. “Os responsáveis podem sofrer multa civil e receber ordem para matricular. Nos casos mais extremos, até perder o poder familiar (a guarda e os direitos sobre a criança)”, explica Prado. Contudo, ele encontrou jurisprudências que reconhecem o direito dos pais educarem os filhos em casa - já que isso não seria um abandono intelectual.

Lei Tramita no Congresso Nacional, desde o ano passado, o Projeto de Lei 3179/12, do deputado Lincoln Portela (PR-MG). Ele propõe legalizar o ensino domiciliar. O ministro da Educação, Aloísio Mercadante, pediu um estudo sobre a aplicação do modelo em outros países, que deve ser entregue em setembro. Até lá, o deputado prefere manter o conteúdo da pesquisa em sigilo.

O próprio Lincoln foi alfabetizado em casa pela avó e só foi à escola aos 7 anos. “Desde que iniciamos a tramitação do projeto, recebemos milhares de e-mails de apoio”, revela o deputado. Atualmente, segundo dados da Aned, 63 países consideram o ensino domiciliar legal. 










sexta-feira, 26 de julho de 2013

PROJETO DE LEI A FAVOR DO ENSINO DOMICILIAR TEM OPOSIÇÃO DO MEC

      São cerca de 800 famílias adeptas do ensino em casa no país



A rotina de estudos começa cedo para os irmãos Rafael, de 6 anos, e Gabriela, de 10. A dupla mal acorda e já está em aula, às 8h, aprendendo lições de disciplinas como Português, História e Geografia. Na parte da tarde, Gabriela se concentra em aulas de música, enquanto o caçula prefere praticar seu traço com desenhos. A rotina descrita poderia se passar numa escola, mas acontece no apartamento em Jacarepaguá onde moram as crianças, que estão sendo educadas pelos pais, Flávia e Tom Beck. Rafael e Gabriela não estão matriculadas num colégio.

— Achamos que essa forma de ensino é mais eficaz que uma escola, e trabalhamos a autoestima deles. Que colégios oferecem um psicólogo apenas para isso? — argumenta o pai, Tom, filósofo e professor de português e inglês.

Eles não estão sozinhos, mas são uma minoria. De acordo com a Associação Nacional de Ensino Domiciliar (Aned), há 800 famílias no país declaradamente adeptas de uma forma de ensino não regulamentada no Brasil. Pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), é dever dos pais ou responsáveis matricular na escola os filhos com idades entre 4 e 17 anos. Em alguns países, porém, a prática é reconhecida. Nos EUA, por exemplo, estima-se em 2 milhões o número de famílias adeptas do homeschooling.

Em 12 de junho último, entusiastas da educação caseira foram a uma audiência pública na Câmara dos Deputados, em Brasília, onde tramita o Projeto de Lei 3179/12, que propõe a inclusão da educação familiar na LDB. A grande maioria dos pais adeptos do ensino doméstico alegam razões religiosas para não matricular seus filhos em escolas. O próprio autor do projeto de lei, Lincoln Portela (PR-MG), é um dos líderes da bancada evangélica na Câmara. Mas a ideia está distante de atrair um consenso.

Enquanto especialistas em educação se dividem sobre o tema, o próprio Ministério da Educação se posiciona contra. “A proposta de ensino domiciliar não apresenta amparo legal, ferindo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a LDB e a própria Constituição Federal. O entendimento do parecer é de que a família não deve privar seus filhos do convívio escolar, sendo que cabe obrigatoriamente ao Estado o dever de assegurar a educação escolar das crianças e adolescentes”, alegou o MEC em nota ao GLOBO.

— Quem pratica o homeschoolling afirma que uma das razões para educar os filhos em casa é a baixa qualidade do ensino no Brasil. Mas se a qualidade é baixa, devemos melhorar a escola, e não abandoná-la. Além disso, a criança não cria espírito coletivo. Desenvolve-se um individualismo exacerbado — critica o professor Carlos Alberto Cury, da Faculdade de Educação da PUC-MG.

Pelo texto do projeto de lei, só seria possível regulamentar a prática se observadas “articulação, supervisão e avaliação periódica da aprendizagem pelos órgãos próprios desses sistemas, nos termos das diretrizes gerais estabelecidas pela União e das respectivas normas locais”.

Para aulas do ensino básico, a família Beck diz que segue o modelo curricular do MEC e compra material escolar recomendado no Plano Nacional do Livro Didático (PNLD). Como se ambos cursassem o ensino fundamental, Rafael lê obras referentes à 1º série, enquanto que Gabriela estuda em material pedagógico do 5º ano.

Flávia sabe que vai precisar de auxílio quando os filhos chegarem ao currículo do ensino médio. Professores particulares são uma opção, mas o casal espera contar também com o intercâmbio existente entre pais adeptos da mesma prática. Se numa casa, a mãe é formada em Ciências Humanas e pode dar aulas de História, por exemplo, e, em outro, o pai tem diploma na área de Ciências Exatas, essas duas famílias ensinam conjuntamente seus filhos.

— Queremos que eles façam faculdade, que tenham uma carreira. Apenas achamos que as escolas aqui são fracas — comenta Flávia, que é escritora de livros infantis. — Quando chegar a hora, vamos orientar nossos filhos a se inscrever no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Assim, eles poderão obter o certificado de conclusão do Ensino Médio.

O artigo 246 do Código Penal define como abandono intelectual “deixar, sem justa causa, de prover à instrução primária de filho em idade escolar”. Mas, de acordo com o advogado Alexandre Magno, diretor jurídico da Aned, quem educa seus filhos em casa não está, “de maneira alguma”, cometendo uma infração.

— O que está na lei é deixar de instruir o filho na idade obrigatória, mas não cita a escola. Não há risco de ser punido criminalmente. O Código Penal não se refere à escola, mas, sim, à instrução — interpreta Magno.

Em Minas, casal foi condenado a pagar multa
Não foi este, porém, o entendimento da Vara de Infância de Juventude do município mineiro de Timóteo. Em 2010, após denúncia do Conselho Tutelar local, o órgão condenou Cléber e Bernadeth Nunes a pagar uma multa hoje estimada em R$ 9 mil. Esta foi a primeira condenação desse tipo no país, segundo a Aned.

Habituados desde pequenos a estudar, principalmente, o conteúdo pelo qual nutriam interesse, os irmãos Jônatas e David Nunes, hoje com 19 e 20 anos respectivamente, foram, na época, obrigados a prestar uma bateria de oito exames teóricos. O objetivo era comprovar, ou não, o abandono intelectual. Mas a dupla, que havia saído da escola ainda no ensino fundamental, foi aprovada em todos os testes.
— No final, provamos que abandono intelectual é diferente de abandono escolar. Ficamos felizes — resume o pai, Cléber Nunes.

Numa sala de aula improvisada em casa, na Ilha do Governador, Arthur de Freitas Machado Martin, de 8 anos, aprende a contar até dez. Ele é portador de necessidades especiais. Segundo a mãe, a advogada Consuelo Martin, não houve diagnóstico preciso sobre sua condição. O menino, que ainda não fala, está matriculado numa escola particular. A LDB não faz qualquer distinção sobre crianças com necessidades especiais ao deixar claro que todas devem estar na escola. Mas a advogada prefere educar o filho em casa, com direito a apoio de terapeuta a psicopedagogo, e pretende montar uma “escola informal” em casa.
— Em nenhuma escola o meu filho vai receber a atenção que tem em casa — diz Consuelo.

Pais acham ambiente escolar pobre e nocivo
Na pesquisa “Escola? Não, obrigado: um retrato da homeschooling no Brasil”, o sociólogo da UnB André de Holanda ouviu 62 pais que educam seus filhos em casa, residentes em 12 estados, de todas as regiões brasileiras. Como parte do trabalho, que compõe sua dissertação de mestrado na UFMG, Holanda entrevistou oito pais e mães para entender os motivos da adoção da educação domiciliar.

Segundo ele, as motivações religiosas e/ou morais foram manifestadas por todos entrevistados. O pesquisador destaca também que a maioria dos pais (76%) considera o ambiente de socialização escolar nocivo: todos citaram experiências negativas sofridas nas escolas da parte dos filhos ou deles mesmos.

Também aparecem as motivações pedagógicas e as alegações de que o ensino regular ou o ambiente de aprendizado convencional é pobre (53%). Holanda acrescenta que mais da metade dos pais-educadores adota algum modelo de aprendizagem na educação domiciliar, tipicamente com currículos e horários de estudo pré-estabelecidos por eles.
De acordo com a pesquisa, três em cada dez pais consideram “eclética” a abordagem pedagógica que aplicam aos filhos, o que sugere a ocorrência de experimentações e combinações de métodos e filosofias educacionais diversas. Os filhos educados em casa têm 8 anos, em média, e começaram a ser educados nessa modalidade com 6.

— As crianças de famílias que adotam a educação domiciliar desenvolvem criatividade e independência. Eles adquirem mais habilidade empreendedora — observa Holanda.
Já para o pedagogo Ruda Ricci, presidente do Instituto Cultivar, o que está por trás do debate é o dilema entre o direito individual versus o autoritarismo do Estado. Nessa dicotomia, Ricci prefere se posicionar defendendo o dever estatal de prover educação formal, pois a escola estimularia a sociabilidade e a solidariedade.

— A ideia da educação familiar parte do princípio de que você terá sucesso individualmente, coisa que não aprenderia na escola. Mas eu não vou à escola só para aprender o que vai cair no vestibular, mas também para aprender a conviver com o diferente. A escola tem uma função de sociabilidade.





Pais consideram ambiente escolar pobre e nocivo para os filhos


Na pesquisa “Escola? Não, obrigado: um retrato da homeschooling no Brasil”, o sociólogo da UnB André de Holanda ouviu 62 pais que educam seus filhos em casa, residentes em 12 estados, de todas as regiões brasileiras. Como parte do trabalho, que compõe sua dissertação de mestrado na UFMG, Holanda entrevistou oito pais e mães para entender os motivos da adoção da educação domiciliar.

Segundo ele, as motivações religiosas e/ou morais foram manifestadas por todos entrevistados. O pesquisador destaca também que a maioria dos pais (76%) considera o ambiente de socialização escolar nocivo: todos citaram experiências negativas sofridas nas escolas da parte dos filhos ou deles mesmos.

Também aparecem as motivações pedagógicas e as alegações de que o ensino regular ou o ambiente de aprendizado convencional é pobre (53%). Holanda acrescenta que mais da metade dos pais-educadores adota algum modelo de aprendizagem na educação domiciliar, tipicamente com currículos e horários de estudo pré-estabelecidos por eles.

De acordo com a pesquisa, três em cada dez pais consideram “eclética” a abordagem pedagógica que aplicam aos filhos, o que sugere a ocorrência de experimentações e combinações de métodos e filosofias educacionais diversas. Os filhos educados em casa têm 8 anos, em média, e começaram a ser educados nessa modalidade com 6.

— As crianças de famílias que adotam a educação domiciliar desenvolvem criatividade e independência. Eles adquirem mais habilidade empreendedora — observa Holanda.
Já para o pedagogo Ruda Ricci, presidente do Instituto Cultivar, o que está por trás do debate é o dilema entre o direito individual versus o autoritarismo do Estado. Nessa dicotomia, Ricci prefere se posicionar defendendo o dever estatal de prover educação formal, pois a escola estimularia a sociabilidade e a solidariedade.

— A ideia da educação familiar parte do princípio de que você terá sucesso individualmente, coisa que não aprenderia na escola. Mas eu não vou à escola só para aprender o que vai cair no vestibular, mas também para aprender a conviver com o diferente. A escola tem uma função de sociabilidade.










quinta-feira, 4 de julho de 2013

OPINIÃO: A (DES)EDUCAÇÃO BRASILEIRA



"A espera por uma sacudida no processo educacional fica cada vez mais utópica", afirma Wemerson Damasio

Fonte: Gazeta do povo (PR)







Acontecimentos recentes – ou melhor, acontecimentos que querem que pensemos que sejam recentes – levantaram questões sobre a Educação no Brasil, como a violência e o consequente descaso das autoridades. No entanto, não é de hoje, e muito menos de ontem, que fatores violentos assombram as Escolas e todos aqueles que fazem parte delas.

Vivemos em um país onde os números falam mais alto que a percepção e bom senso do cidadão; onde o Índice de Desenvolvimento da Educação básica é camuflado bienalmente; onde o Professor passou de transmissor de conhecimentos para Educador básico e cuidador de crianças, em média 30 ou 35 por aula, recebendo uma responsabilidade que não lhe pertence: a de educar, no sentido primordial de um dicionário qualquer. Nesse processo de formar cidadãos (porque a responsabilidade agora cai única e exclusivamente sobre o profissional da Educação) exclui-se, quase que em sua totalidade, a participação familiar e política desse pré-cidadão; expõe-se pré-adolescentes, adolescentes e profissionais ao barbarismo e conquistas medievais, guerras travadas diariamente por um espaço na sociedade.

Fala-se constantemente da erradicação da miséria. Promovem-se projetos, distribuem-se benefícios e engana-se uma nação. Escondem atrás de algumas notas de real uma realidade que, aparentemente, é aceita por aqueles que são beneficiados. Esquece-se, porém, que uma nação necessita de muito mais que apenas algum dinheiro no bolso; que a promoção cidadã é galgada diariamente com muito esforço, suor e Educação. Educação em seu mais amplo sentido, e tal amplitude estacionou nas costas daqueles que se propõem a enfrentar uma guerra munidos apenas de um pouco mais de conhecimento e boas intenções de transmiti-lo.

Nesse contexto, todos se prejudicam: educandos e Educadores, filhos e pais, cidadãos e país. A espera por uma sacudida no processo educacional fica cada vez mais utópica. O reflexo de tudo isso será percebido por gerações das quais, espero, não farei mais parte, tendo em vista que num futuro próximo as nossas vidas serão cuidadas e comandadas pela geração atual que desrespeita, agride, quase nada apreende e expõe-se, orgulhosamente, à regressão nas mídias. Por outro lado, podemos também ser cuidados e comandados por aqueles que, espertamente, nos deixarão de herança seu sucessores.

Violência não é apenas socos, pontapés e agressões verbais; inclui-se nela também o descaso familiar e político para com uma geração que um dia povoará o país. O nosso país.

*Wemerson Damasio, especialista em Metodologia de Ensino, é Professor especialista da rede pública estadual e municipal. 










quinta-feira, 13 de junho de 2013

OPINIÃO: CÉREBRO E COMPUTADOR





"Crianças nutridas adequadamente e recebendo Educação de alto nível poderão se transformar nos cientistas de que carecemos, como reconheceu a própria presidente Dilma Rousseff", afirma Arnaldo Niskier

Fonte: O Globo (RJ)







O cérebro normal de uma criança cresce até os cinco anos de idade e alcança um total de cerca de 90 bilhões de neurônios. Essa verdade não nasceu hoje, quando há um extraordinário avanço em tudo o que se refere à neurociência.

Mas é possível encontrar os prolegômenos da ideia em trabalhos como os do cientista e Professor Josué de Castro, autor do célebre "Geografia da fome".

A desnutrição nos primeiros anos de vida provoca sequelas quase sempre irreversíveis, no crescimento do cérebro. Aí pode estar também a raiz das nossas clássicas dificuldades de Alfabetização (hoje, ainda temos cerca de 14 milhões de adultos Analfabetos).

Crianças nutridas adequadamente e recebendo Educação de alto nível poderão se transformar nos cientistas de que carecemos, como reconheceu a própria presidente Dilma Rousseff. O seu programa Ciência sem Fronteiras busca exatamente a correção desse problema crônico, na Educação brasileira.

Entendemos que não basta enviar nossos jovens para os grandes centros mundiais de pesquisa. Eles voltam (quando voltam) e não encontram ambientes propícios ao desenvolvimento das suas habilidades. É mais um tempo desperdiçado e recursos jogados fora.

Com a interface cérebro-máquina agora existente temos possibilidades incríveis de expansão do conhecimento, mas isso não começa nas universidades e sim nos primeiros anos de Escolaridade. Inovação é um conceito muito amplo, que não pode ser introjetado na cabeça dos estudantes de repente, numa determinada série. Isso vem desde cedo, com Professores bem preparados e estimulados a valorizar as conquistas científicas e tecnológicas.

É claro que todos sabemos o vulto do desafio. Às vezes nos espantamos com certas decisões aparentemente incompreensíveis, como a importação de médicos cubanos, "para trabalhar no interior do país".

Quem garante a competência deles para enfrentar os desafios da medicina tropical? Nem a desculpa de que se trata de uma solução de emergência tem cabimento, até porque isso se vai perigosamente ampliando. Começou na engenharia e agora chega à medicina.

Temos é que formar de modo competente os nossos jovens, com uma Educação de primeira classe. Imaginar que a importação de cérebros estranhos à nossa realidade seja uma boa solução é tentar resolver o problema pelo facilitário.
Devemos acelerar a formação de cientistas em nosso país (existe um pequeno aumento nesse número), para aproveitar de modo inteligente a extraordinária reserva da biodiversidade brasileira.

Educando os jovens, certamente, eles irão influenciar os pais e assim se forma a equação do nosso progresso. Cérebro e computador não podem caminhar dissociados. 














segunda-feira, 27 de maio de 2013

OPINIÃO: O PAPEL DO EDUCADOR


"Quanto mais complexa a realidade, mais necessário o pedagogo, o artesão da existência que transforma conteúdo e linguagem do mundo em conhecimento e aprendizagem", afirma Marcos Villela Pereira

Fonte: Zero Hora (RS)





O Dia do Pedagogo é comemorado no mês de maio. Para muitos, é só mais uma data comemorativa. Mas vale a pena destacar um pouco de quem é, o que faz e o que pode esse sujeito, muitas vezes invisível ou despercebido, presente em lugares e situações que nem imaginamos.

O pedagogo, diz a origem da palavra, é aquele que conduz as crianças. É ele que inicia os pequenos nas artes de viver, no saber, na leitura e escrita, no brinquedo, no cuidado de si, na invenção e na aprendizagem de tudo o que nos cerca. No começo, era um escravo ou um empregado da casa quem fazia isso. Essa condição se transformou, até chegarmos aos dias em que é necessário ir à universidade para exercer a profissão.

Os cursos de Pedagogia habilitam Professores para atuar na Educação infantil e nos anos iniciais do Ensino fundamental, na modalidade regular e Educação de jovens e adultos. Com a obrigatoriedade da matrícula a partir dos quatro anos e o compromisso de alfabetizar até o final do terceiro ano, a responsabilidade é assegurar às crianças o direito de brincar, conviver, conhecer e aprender.

Em 2006, as diretrizes curriculares para o curso de Pedagogia estabeleceram esse modelo vigente. Até lá, os cursos podiam formar os supervisores, orientadores, administradores e coordenadores. Também os psicopedagogos, Educadores especiais e profissionais especializados no atendimento de estudantes com alguma deficiência ou condição particular de aprendizagem eram aí formados. Educadores sociais ou dedicados à pedagogia empresarial também eram diplomados nesse curso. Hoje, todos são habilitados em cursos de especialização. Essas áreas de saber ainda existem no curso, mas como disciplinas ou atividades curriculares, proporcionando formação básica e geral sobre tudo o que acontece no interior e ao redor da Escola.

Há pedagogos em diferentes cenários profissionais. Quando uma situação nova é mediada por alguém, provavelmente há um pedagogo: na Educação para o trânsito, medidas socioeducativas, ações afirmativas, práticas inclusivas, campanhas públicas, formação, reabilitação, capacitação, nas empresas, museus, Creches, hospitais, enfim. Podemos dizer que os pedagogos entram em cena cada vez que a gente se coloca em uma situação de aprendizagem.

Quanto mais complexa a realidade, mais necessário o pedagogo, o artesão da existência que transforma conteúdo e linguagem do mundo em conhecimento e aprendizagem.

*Diretor da Faculdade de Educação da PUCRS










quinta-feira, 23 de maio de 2013

OPINIÃO: AGRESSÕES NAS ESCOLAS: A RESPONSABILIDADE É DE TODOS




"A escola se preocupa com os conteúdos, mas conteúdo não se aprende em situação de sofrimento", afirma Esther Cristina Pereira

Fonte: Gazeta do Povo (PR)





É comum ouvirmos, enxergarmos, lermos e até visualizarmos bem de pertinho situações de agressões em qualquer lugar. Quando se fala em Escola, tem-se um sentimento diferente. Esse repúdio social à violência dentro da Escola deveria, sim, vir junto com um enorme questionário para avaliarmos o porquê da briga em ambiente Escolar entre crianças e adolescentes.

Em primeiro lugar, observar o todo é extremamente necessário, pois a Escola tem se tornado o primeiro ambiente social que a criança vive e nele iniciam os primeiros “nãos” que recebe. Temos nas mãos uma geração educada pelas famílias, ganhando e tendo tudo, não conhecendo a palavra não, não vivendo o dividir, o não ter e o esperar. Quando chegam às Escolas, essa geração de crianças e adolescentes começa a viver com os nãos, com as negações às suas vontades, pois estão convivendo com o social, comportamentos coletivos que são obrigados a trilhar, mas para o qual não foram preparados.

Pensemos em um pequenino, rei da sua casa, da sua família, filho único, neto único, tudo único. Ele não será todos os dias o primeiro da fila, ele não será atendido em todos os momentos pela Professora e terá de perceber que os outros também têm vez e voz. Fazer parte da coletividade é um dos pontos mais conflitantes para o ser humano.

Em segundo lugar, ouvir o outro, se colocar no lugar do outro, não é disciplina ou conduta ensinada às crianças de hoje. Impera o que eu quero, quando quero. Como na Escola são muitos que querem tudo ao mesmo tempo, os conflitos começam a dar sinais, pois assim o poder aparece e continuam em um ganha ganha infinito, muitas vezes pela violência.

A Escola é sim um espaço civilizador. É nela que o ser humano inicia seu estágio para conviver verdadeiramente com a civilização. Nesse espaço, a violência começa com pequenos conflitos e indisciplinas. Se eles não forem trabalhados com qualidade pelos adultos que nela estão inseridos, invariavelmente crescerão e se tornarão um problema muito maior.

A Escola, com seu papel de formadora, não pode terceirizar para porteiros ou monitores os problemas e conflitos entre os Alunos. Ela precisa trazer para si, junto com as famílias, os relacionamentos mal resolvidos e conversas mal acabadas, pois a violência entre os educandos é sempre coisa pequena que, quando mal resolvida, ganha dimensões muito maiores. E esse problema é sentido no ambiente Escolar, pois sempre um Aluno abre a guarda, contando para algum adulto a situação. A Escola se preocupa com os conteúdos, mas conteúdo não se aprende em situação de sofrimento.

Não existe um Professor que não consiga resolver conflitos. Existe aquele que não quer resolver, que não tira tempo para isso. A resolução de conflitos não precisa de curso ou aperfeiçoamento, basta o Professor querer abrir mão do conteúdo para auxiliar os seus educandos no processo de viver em sociedade.

Acreditar na Escola com autonomia e diálogo se faz necessário, pois ela existe. Uma instituição que ouça o Aluno, em toda a sua dimensão, que debata os problemas, os conflitos sociais e familiares, que gere nos educandos uma sinergia de autocomprometimento e ajuda mútua. Desta Escola é o que precisamos hoje.

Esther Cristina Pereira, diretora da Escola Atuação, de Curitiba (PR).









quarta-feira, 22 de maio de 2013

Quem quer ser professor de escola pública?



O principal desestímulo para alguém ser professor de escola pública - pior do que os baixos salários - é a violência.

Esse fato é reforçado por uma pesquisa divulgada nesta semana pelo Data Popular e patrocinada pela Apeoesp que mostra que quase metade dos professores da rede estadual paulista de ensino sofreu algum tipo de violência ( física ou verbal). E quase a maioria testemunhou algum tipo de violência, atribuída muitas vezes às drogas e ao álcool.

É, sem exagero, um inferno. Nunca seremos uma comunidade civilizada com escolas públicas incivilizadas.

Nem aluno nem professores sentem-se acolhidos num espaço em que a violência é reflexo da falta de pertencimento.

A solução passa -como já vimos em outros países- pelo aprendizado da intermediação de conflitos e envolvimento da comunidade, a começar da comunidade. Isso significa derrubar os muros das escolas.

Por isso, vale a pena prestar atenção no projeto lançado em algumas escolas públicas paulistas que coloca professores comunitários para fazer a intermediação entre comunidade e escola.

A verdade é que o professor sente-se vítima da violência. Assim como o aluno.






Gilberto Dimenstein ganhou os principais prêmios destinados a jornalistas e escritores. Integra uma incubadora de projetos de Harvard (Advanced Leadership Initiative). Desenvolve o Catraca Livre, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle. É morador da Vila Madalena.










Fonte: Folha UOL

quarta-feira, 15 de maio de 2013

OPINIÃO: PROFESSOR: A ESSÊNCIA DA EDUCAÇÃO




"A presidente acerta ao definir a Educação como ferramenta prioritária para o desenvolvimento do País", afirma Artur Bruno

Fonte: O Povo (CE)





Um bom Professor a gente nunca esquece. É nele que está a chave para melhorarmos efetivamente a Educação do nosso País. Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff foi enfática ao reafirmar que os recursos dos royalties e participações especiais do petróleo, além dos rendimentos do Fundo Social do Pré-sal, são essenciais para promover uma revolução nesse setor.


Na década de 1960, a renda per capita da Coreia do Sul era metade da do Brasil. Hoje ela é o dobro por conta de investimentos na área educacional. Apesar de sermos a sexta economia mundial entre 195 países, amargamos a 88ª posição em qualidade de Educação, de acordo com a Unesco. Segundo o Movimento Todos Pela Educação, os Alunos terminam o Ensino médio sabendo apenas 10% do que deveriam ter aprendido em Matemática e somente 29% em Português.

O Professor é um elemento central nessa revolução educacional. No entanto, há necessidades a serem superadas: esses profissionais precisam de melhoria salarial, atrativos planos de cargos e carreiras e formação continuada para que o Ensino tenha, de fato, qualidade.

Não podemos negar que houve avanços nos últimos dez anos. Antes da Lei do Piso, havia municípios que não chegavam a pagar nem um salário mínimo aos seus Docentes. Agora nenhum deles deve ganhar menos do que
R$ 1.567. Entretanto, há um longo caminho a ser percorrido. Nos Estados Unidos, por exemplo, um Professor do Ensino básico público ganha um salário equivalente a R$ 10 mil. Na Coreia, R$ 8 mil. Aqui, esses profissionais ganham em média R$ 2 mil.

Entretanto, não adianta apenas melhorar os salários. A ascensão por mérito tem de ser uma regra a ser seguida. As boas práticas em sala de aula precisam ser premiadas. O poder público tem de oferecer formação continuada para que os Professores formem Alunos com visão de mundo e bom conhecimento tecnológico. Outro fator importante é a qualificação de diretores – que devem ser escolhidos por critérios técnicos, e não políticos - para atrair a comunidade ao ambiente Escolar.

A presidente Dilma acerta ao definir a Educação como ferramenta prioritária para o desenvolvimento do nosso País. Hoje investimos 6,1% do PIB na Educação pública, o equivalente a R$ 240 bilhões – somando recursos da União, estados e municípios. Se a regra do Plano Nacional de Educação estivesse vigorando – investir 10% do PIB –, esse montante atualmente teria de ser de R$ 400 bilhões. Nesta longa caminhada, a solução é transformar inesquecível cada Professor.

Artur Bruno
Primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados e Professor há 35 anos 













terça-feira, 7 de maio de 2013

BRASIL CELEBROU DIA DA EDUCAÇÃO AINDA COM MUITOS DESAFIOS PARA SUPERAR



Mozart Neves Ramos, conselheiro do movimento Todos pela Educação, ressalta que houve avanços, mas ainda há problemas para resolver

Fonte: Globo Cidadania





Temos o que comemorar no Dia da Educação, celebrado em 28 de abril, mas os desafios do Brasil no setor ainda são grandes. De acordo com o professor Mozart Neves Ramos, conselheiro do movimento Todos Pela Educação, a aprovação da Emenda Constitucional nº 59, em 2009, que determina a ampliação da obrigatoriedade do ensino entre 4 e 17 anos de idade (antes era dos 6 aos 14 anos), teve um impacto positivo na Educação Básica.

“Acho que a emenda contribui para colocar as crianças na escola. A partir do momento que foi aprovada, acabou refletindo nas três primeiras metas do Plano Nacional de Educação (PNE), relativas à universalização do ensino. Outro ponto de avanço é o progressivo aumento de aprendizagem nas séries iniciais. Com isso, acho que antes de 2020, prazo final do PNE, conseguiremos atingir as metas previstas para as séries iniciais”, ressalta.

Por outro lado, segundo Ramos, é preciso ficar mais atento às etapas seguintes de formação, principalmente, o Ensino Médio. “Os desafios só serão vencidos se tivermos gente qualificada dando aula. Infelizmente, a carreira de magistério não é sedutora. A questão da escassez de professores é preocupante e já está refletindo no Ensino Técnico. Falta mão de obra em Matemática, Química e Física”, alerta o especialista.

A proposta do PNE continua tramitando no Congresso, atualmente no Senado, e a polêmica do momento é a destinação de 100% dos royalties do pré-sal para a educação, explica Ramos. “A questão que está pegando é que o Executivo quer 100% dos royalties para a educação, e os prefeitos não querem, afirmando que parte dos royalties poderia ser destinada para outras áreas. Mas acredito que isso será resolvido e o PNE aprovado”, completa.

Em tramitação no Congresso Nacional como projeto de lei, o novo Plano Nacional de Educação (PNE) contempla ao todo dez diretrizes objetivas e 20 metas relacionadas ao acesso, à permanência, à qualidade, à democratização, ao financiamento e à inclusão escolar.










sexta-feira, 26 de abril de 2013

Hora de tirar dúvidas!

Os professores deveriam aplaudir os alunos que trazem dúvidas difíceis de tirar. Se acertarmos nas dúvidas, atingiremos o alvo da educação


Gabriel Perissé*



A professora, após explicar o que tinha de explicar, disse:

- É isso aí, gente! Quem tiver alguma dúvida pode falar, agora é a hora de tirar as dúvidas.

O menino levantou o braço.

- Muito bem, Jeferson! Que dúvida você tem?

O aluno tinha uma dúvida sobre subtração com números fracionados. E a professora rebateu, decepcionada:

- Vê-se logo que você não estava atento à minha explicação, não é? Que dúvida é essa! Como você não conseguiu entender algo tão simples?

E repetiu a mesma explicação. Com receio de frustrar a professora, e de tomar outra bronca, o menino fez cara de que finalmente entendera tudo. A dúvida foi tirada... para fora.

- Alguém mais tem dúvida? - voltou a perguntar a professora. Aguardou alguns segundos, olhando para a turma por cima dos óculos. Mas dessa vez o silêncio lhe dizia que sua aula tinha sido perfeita.



Dubito ergo sum

Duvidar faz parte do processo natural do pensamento. Ficamos em dúvida, entre sair ou não, entre o sim e o não, entre aquele caminho ou outro, ou um terceiro ainda. A dúvida é existencial. Duvidamos, por isso existimos. E, para continuar existindo, precisamos ver os prós e os contras, e escolher os caminhos que nos pareçam mais adequados.

As três palavras em latim - dubito ergo sum - são de inspiração cartesiana. O filósofo francês Descartes dizia que pensar é duvidar, e que duvidar é sinal de que estamos vivos. Os vivos vivem suas dúvidas e suas certezas. Os vivos têm certeza de que tirar toda e qualquer dúvida é extirpar um pedaço da nossa mente.

Para levantar dúvidas precisamos estar atentos. O aluno teve a coragem de falar, e a professora perdeu a chance de fazer uma autocrítica. A explicação repetida tirou a dúvida da frente, eliminou a dúvida por decreto, impedindo que aquele e os demais alunos vissem como é possível praticar a poesia da dúvida.

Quando alguém deixa a dúvida aparecer é porque está pensando, é porque está com a mente em ação. A mente ativa faz poesia. As mentes poéticas são flexíveis, curiosas, disponíveis para descobrir a complexidade da vida. São mentes abertas para novas interpretações.



"Onde houver dúvida, que eu leve a fé."


Podemos reinterpretar essa frase como um convite à convivência entre dúvida e certeza. A dúvida precisa ser acompanhada pela certeza. E a certeza precisa ser precedida pela dúvida.



O inferno da certeza

A certeza pela certeza pode levar à estagnação mental e existencial. E duvidar por duvidar pode nos levar para o beco sem saída da certeza. Quando duvidamos por teimosia (ou quando por teimosia não queremos duvidar), deixamos de aprender. A professora não tinha a menor dúvida de que a sua explicação era a única explicação certa. E que era a melhor de todas as explicações possíveis!



Vejamos esse irreverente poema de Mario Quintana, do seu livro Caderno H:


A dúvida e a certeza

São Tomé - que, como todo o mundo sabe, foi o precursor da dúvida cartesiana - jamais perdeu a obsessão das verdades palpáveis e por isso foi parar no Inferno. Ora, os mais infelizes dentre os infernados são os arrependidos e um destes censurou tristemente a Tomé:

- Viste? Só de teimoso tu perdeste o Céu...

E Tomé:

-O Céu? Não sejas doido... Só existe o Inferno!

É para ver o outro lado do céu, ou o outro lado do inferno, que precisamos pensar. O poeta Quintana coloca um santo no inferno. São Tomé tem fé naquilo que vê, e por isso tem certeza de que o inferno existe.

Mas o poema poderia continuar assim:

Quando o Diabo ouviu dizer que São Tomé andava pelo Inferno, disseminando a dúvida entre os infernados, foi procurá-lo, soltando fogo pelas ventas:

- Tomé! Como ousas colocar em dúvida a existência do Céu. Sem o Céu, o Inferno não tem mais graça!

- Só acreditarei no Céu se eu puder ver com meus próprios olhos.

O Diabo pegou São Tomé pelo pescoço e o lançou para o alto. Quando chegou ao Céu, São Pedro censurou a Tomé:

- Por onde andavas, rapaz? Jesus pergunta por ti todos os dias!

Tomé não hesitou e disse:

- Duvido!




Hora de acertar na dúvida

Estamos cercados de certezas e de dúvidas. Se acertarmos nas dúvidas, atingiremos o alvo da educação. Os professores deveriam aplaudir os alunos que trazem dúvidas difíceis de tirar. Uma boa dúvida rompe com a monotonia da única resposta certa.

O pedagogo inglês Ken Robinson defende o cultivo do pensamento divergente. Quantas utilidades podemos dar para um clipe? Há quem acredita que essa pequena peça de metal ou matéria plástica tem como única função juntar papéis.

Ao colocar em dúvida esta certeza, os papéis se soltam e também nossa mente. Experimente sua mente! Ao terminar de ler este artigo, faça uma lista.

Não tenho a menor dúvida de que você descobrirá centenas de utilidades para um clipe.






*Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do Núcleo Pensamento e Criatividade (NPC) - www.perisse.com.br

OPINIÃO: O USO DA INTERNET NA EDUCAÇÃO


"Nós, educadores, precisamos acompanhar essas tendências e compreender de uma vez que, se não levarmos as tecnologias aos nossos alunos, seremos nós quem nos distanciaremos do novo formato de Educação", afirma Tatiana Bertt


Mesmo que no início a Internet tenha sido utilizada apenas para fins militares, em poucos anos se tornou um referencial em todo tipo de comunicação. Com o passar do tempo, ela foi sendo aprimorada em uma interface gráfica visualmente interessante e mais dinâmica. Esse acesso, enfim, chegou às Escolas, o que se deu em meados dos anos 90.

A partir daí, contudo, surgiu uma pergunta que está em evidência até hoje: afinal, como avaliar o desenvolvimento das habilidades dos Alunos que utilizam esse recurso? Para responder a essa pergunta, podemos relacionar o Ensino antes e depois da chegada da Internet nas instituições educacionais.

O cenário de aprendizagem antes era o Professor como emissor da palavra e o Aluno ouvinte. Assim sendo, aquilo que o Aluno ouvia era por ele reproduzido em palavras escritas em seu caderno ou livro didático. Nesse contexto, havia pouca interação entre eles.

Depois da Internet, o cenário mudou quase por completo. Temos o Professor como mediador do conhecimento, enquanto Alunos se tornam coautores na busca da informação. Os Alunos hoje podem compartilhar ideias e aprofundar as pesquisas relacionadas ao assunto em um ambiente de reflexão, com bibliotecas virtuais, guias, apostilas interativas e muito mais.

Ainda há que se falar do aprendizado colaborativo, uma grande tendência dos Alunos do século XXI. Nesse ambiente, as pessoas com interesse comum se reúnem para compartilhar o que sabem, buscam juntas a solução dos problemas, tomam decisões e agem em equipe por meio de fóruns de debates, e-mails, videoconferências, sendo cercadas por muitas outras possibilidades no mundo todo.

Trata-se agora de uma Nova Cultura Educacional, que tem como base o Compartilhamento das Ideias e ideais em Projetos Colaborativos. Nós, Educadores, precisamos acompanhar essas tendências e compreender de uma vez que, se não levarmos as tecnologias (acessos à internet, redes sociais...) aos nossos Alunos, seremos nós quem nos distanciaremos desse novo formato de Educação. Cabe o entendimento da utilização da Internet, de como nossos Alunos compreendem a pesquisa, o acesso e a busca, bem como da forma como utilizam a informação.

Temos que estar “antenados” em tudo que acontece na web e usar esses recursos em nossas aulas a favor da construção do conhecimento. Para contribuir com o uso correto da Internet na sala de aula, existem muitos artigos publicados, que até oferecem o passo a passo de como inserir esse importante recurso em nossas aulas.










quarta-feira, 10 de abril de 2013

OPINIÃO: A BAIXA ATRATIVIDADE DA CARREIRA DO MAGISTÉRIO



Professor da UFPE, membro do Conselho Nacional de Educação e do Conselho de Governança do Todos Pela Educação

Fonte: Correio Braziliense (DF)


Um dos fatores que mais contribuem para o baixo desempenho Escolar e a estagnação observados no Ensino médio é a escassez de Professores, particularmente nas disciplinas de química, física, biologia e matemática. Com o crescimento das matrículas na Educação profissional, problema similar começa a se desenhar com a mesma intensidade nessa modalidade de Ensino. Ambas as modalidades são estratégicas para o Brasil e têm tudo a ver com a nossa juventude.

Nos últimos cinco anos, a expansão da Educação profissional saltou de 928 mil matrículas para 1,36 milhão em 2012. O investimento também apresentou aumento importante nesse mesmo período, saindo de R$ 2 bilhões para R$ 7,6 bilhões. De acordo com dados levantados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil demandará, até 2015, cerca de 7 milhões de técnicos. Mas, para que esse esforço nacional seja bem-sucedido, além de dinheiro, será preciso que haja mais gente qualificada para ensinar, para formar técnicos.

Recente auditoria feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU) revelou um deficit de 8 mil Professores em institutos federais de Educação técnica, o que equivale a 20% dos profissionais necessários. Esse deficit atinge toda a rede de 442 campi em funcionamento no país. As consequências desse déficit Docente são a evasão, os baixos índices de conclusão e o elevado índice de insatisfação por parte dos concluintes, algo em torno de 60%, segundo o TCU.

No Ensino médio, o deficit de Professores é muito maior, algo em torno de 250 mil Professores; nas disciplinas acima mencionadas, esse deficit é de 150 mil. A pergunta central que todos fazem é: como reverter esse quadro? Como tornar atrativa a carreira Docente? Enquanto o desafio da atratividade não for resolvido, será difícil sair da estagnação do Ensino médio e avançar com qualidade para o Ensino técnico, apesar dos crescentes investimentos do governo no setor.

A saída passa, a meu ver, por um pacto nacional para melhorar a atratividade da carreira — que envolve, na essência, quem emprega e quem forma —, intermediado pelo Ministério da Educação (MEC). Ou seja, é preciso envolver os governos e as universidades. Eventualmente, as empresas, no caso da Educação profissional.

Iniciativa que o MEC vem gestando nessa direção é o programa Quero Ser Professor, com foco no Ensino médio, que envolve um conjunto de projetos interligados que traduzem esforço conjunto em prol da atratividade da carreira do magistério. Na essência, o programa engloba três pilares: certificação pós-graduanda para os Professores da rede de Ensino e impacto no plano de carreira, clusters para o desenvolvimento do Ensino integrando Professores e Alunos das universidades e das redes de Ensino, e o projeto Nenhum Aluno para Trás, destinado aos Alunos das licenciaturas. Outra boa iniciativa do MEC foi a implantação do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), para Alunos dos cursos de licenciatura. Hoje já são quase 50 mil bolsas implantadas.

No campo da Educação profissional, iniciativas importantes de ampliar a Escolaridade e a qualificação do trabalhador começam a surgir no país. Nessa direção destacam-se o movimento A Indústria pela Educação, encabeçado pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), e o movimento A Educação para o Mundo do Trabalho, iniciado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ainda em fase de incubação. Acredito que ambos devam incorporar o desafio da atratividade da carreira do magistério à agenda, para que as demandas atuais e futuras sejam atendidas com qualidade.

Os recursos existem e devem ir além da infraestrutura predial. Devem ser empregados para atrair jovens para o magistério, de forma que a carreira se torne objeto de desejo, como ocorre nos países que estão no topo da Educação mundial. É o caso de Coreia do Sul, Finlândia, Canadá e Cingapura.

O Brasil começa a se destacar no cenário mundial, com muitos atrativos e oportunidades de negócios. É o país do 7º PIB mundial e precisa, mais do que nunca, para acelerar o crescimento, de bons Professores, em quantidade suficiente para atender as demandas de formação, tanto do mundo do trabalho quanto do Ensino superior. O que está em jogo, portanto, é o futuro da nossa juventude, que precisa ser preparada para os desafios globais — e isso exige uma boa Educação.













quinta-feira, 4 de abril de 2013

POLÊMICO RECESSO ESCOLAR




Representantes de pais, professores e instituições públicas e privadas do Distrito Federal questionam validade da medida que estabelece 31 dias de férias escolares durante Copa do Mundo de 2014

Fonte: Correio Braziliense (DF)



Enquanto tramita ação na Justiça para vetar os 31 dias de férias Escolares estipulados para o período da Copa do Mundo de 2014, representantes de pais, Professores e instituições públicas e privadas do Distrito Federal alimentam polêmica quanto à validade da medida, prevista no artigo 64 da Lei Geral da Copa. Segundo o documento, os colégios devem adequar o calendário letivo ao cronograma de atividades esportivas. A competição contará com 64 jogos — sendo sete na capital federal — e será realizada entre 12 de junho e 13 de julho do próximo ano.

Para o Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), as Escolas precisam ter autonomia na hora de definir como desenvolver o ano letivo. Por isso, ainda em dezembro do ano passado, a organização deu entrada no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) com uma ação, a fim de barrar o longo recesso programado para 2014. Normalmente, estudantes e Professores têm apenas entre duas e três semanas de férias no meio do ano. A ação tramita na Vara de Fazenda Pública do DF.

A entidade acredita que as férias prolongadas podem atrapalhar o cumprimento dos 200 dias de aulas por ano, obrigatórios por lei, e até acarretar custos adicionais nas mensalidades, graças a atividades de reposição. “Dos sete jogos no DF, três serão em fins de semana. O problema são os outros quatro. As Escolas estão elaborando seus calendários com bom senso, vão determinar feriado nesses dias, sem grandes prejuízos para os Professores e Alunos”, comenta a presidente do Sindepe-DF, Fátima Franco. “Se pararmos 31 dias, a conta não vai fechar. Vamos precisar pagar adicionais aos Professores e isso acabará sendo repassado aos pais”, emenda.

As instituições particulares esperam chegar a uma resolução para o problema ainda este semestre, já que o calendário de 2014 precisa ser elaborado até setembro. Mas a discussão nas Escolas públicas segue em outro ritmo. De acordo com a Secretaria de Educação do DF, não há previsão para tal acerto. A pasta aguarda parecer do Conselho Nacional de Educação sobre o assunto para tomar “as medidas necessárias quanto ao ano letivo de 2014”.

Enquanto o Sindepe tenta derrubar as férias prolongadas, o presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa), Luis Claudio Megiorin, avalia que o recesso, apesar de polêmico, pode ser necessário. “Eu duvido muito que qualquer tribunal vá contra a paralisação. O Brasil está longe de ter condições de sediar um evento dessa magnitude e esse período de recesso é importante por questões como segurança e transporte, por exemplo”, avalia. 









quarta-feira, 27 de março de 2013

Inglês se aprende na escola?

Por que as salas de ensino regular não são reconhecidas como locais onde é possível aprender uma língua estrangeira? Novos programas de formação docente tentam mudar esse cenário


Yolanda Drumon


Arthur: frustração por não entender os americanos em viagem à Disney


Letícia frequentou aulas de inglês durante toda a vida escolar. Arthur começou a estudar a língua estrangeira bem cedo, aos 4 anos. Mesmo assim, nenhum dos dois se sente seguro para se comunicar com falantes nativos do idioma. A percepção de que os brasileiros falam mal o inglês tem sido comprovada por pesquisas, e coloca em questão os objetivos do ensino de idiomas na educação escolar. Afinal, por que o senso comum diz que não se pode aprender a língua considerada "universal" na escola regular?

Para Rose Feba, professora do nível fundamental e médio da Escola Estadual José Polli, de Itupeva (SP), o problema já vem da falta de conhecimento da própria língua portuguesa. Considerando as diretrizes do Ministério da Educação para o ensino do inglês, Rose considera "impossível" cumprir tais orientações. "As classes são tão heterogêneas em termos de patamar de aprendizagem que, no geral, acabamos por não cumprir toda a proposta curricular", reclama a professora.

Os próprios Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Estrangeira para o Ensino Médio, de 2006, citam o desafio de superar a percepção de que o aprendizado de uma língua estrangeira se concretiza apenas em cursos de idiomas. Em sua pesquisa de mestrado na Universidade de São Paulo, O professor de inglês da escola pública: investigações sobre suas identidades numa rede de conflitos, a consultora de educação Renata Quirino observou que os próprios professores e a escola também acreditam não ser possível ensinar uma língua estrangeira na educação formal.



Confusão de sentidos

Parte desse problema é a confusão entre os objetivos do ensino da escola formal e dos cursos de idiomas, defende Renata. "Segundo os Parâmetros, os grandes objetivos das escolas regulares são o desenvolvimento de estratégias e habilidades para lidar com a língua estrangeira, por meio da oralidade e da leitura, e o exercício do pensamento crítico - ou seja, o professor deve trazer para a aula temas a partir dos quais o aluno perceba outras culturas e formas de pensar que não são do próprio país", diz Renata.

A partir e depois disso é que a escola regular deve se voltar para a questão da fluência. Mas é possível que os alunos da educação formal atinjam a tão desejada fluência em uma língua estrangeira? "Depende de cada contexto: do aluno e do professor. Acho que é uma tendência que está chegando para ficar. Mas, enquanto não tivermos um processo de formação de professores, não temos garantia de que isso ocorrerá", opina Renata.

Para a professora de inglês de escolas municipais de São Bernardo do Campo e de São Paulo, Aline Dias, o ensino de língua inglesa na rede pública, especificamente na municipal de São Paulo, é "bastante precário" não por falta de material didático de apoio, mas pelo contexto educacional como um todo. "Os alunos, em sua maioria, não têm nenhum tipo de motivação e/ou objetivos claros a seguir dentro da escola; além disso, há a aprovação automática", exemplifica.

Outra questão que atinge não apenas a rede pública, mas também a particular, é a desvalorização da disciplina frente às demais. "A visão equivocada de que o componente curricular seja de importância relativa na grade curricular faz com que lhe seja atribuída baixa carga horária e que não haja um contexto favorável para que se desenvolvam as quatro habilidades linguísticas: falar, escutar, escrever e ler", avalia Marília Negrini, coordenadora do departamento de inglês do Dante Alighieri, escola particular de São Paulo.

Aline, da rede pública, lembra ainda outras dificuldades que ela reconhece na rede particular. "Nas escolas privadas, o ensino de língua inglesa ainda é algo polêmico, porque os alunos e as famílias não acreditam na possibilidade de aprender uma língua estrangeira na escola regular, cuja maioria dos estudantes frequenta cursos de idiomas."



Barreiras na escola

Uma pesquisa realizada pela professora Ana Lúcia Ducatti, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp de São José do Rio Preto, mostra onde estão os entraves da aprendizagem. O estudo, realizado em 2010 em uma escola pública, constatou que um dos empecilhos para melhor assimilação de conteúdo em inglês é a aula ser dada em português. Além disso, Ana Lúcia indica como obstáculos o despreparo e a jornada até tripla dos professores e o foco do ensino na gramática, e não no uso do idioma, como o MEC orienta. A pesquisa revela ainda que os professores carecem de material didático adequado.

Renata Quirino concorda. Para a pesquisadora, existe a ilusão de que basta algum tempo de exposição à língua para que as habilidades se desenvolvam. "As crianças têm duas ou três aulas de inglês por semana, e se elas não estão ouvindo e falando em inglês, esse tempo não é suficiente", diz, completando que a língua inglesa precisa ter espaço diferente dentro da escola, e não ser vista apenas como uma "disciplina extra". Renata defende ainda a necessidade de as avaliações serem feitas de forma processual, ao longo do ano. "Não é possível melhorar o ensino com provas de memorização", analisa.

As descobertas da neurociência sobre a capacidade de aprender uma nova língua têm estimulado que as aulas de inglês sejam iniciadas para crianças cada vez menores. Renata acredita que essa possa ser uma boa alternativa para melhorar o ensino do idioma, mas no contexto de essas crianças terem experiências ricas desde cedo, de forma lúdica. Caso a qualidade do trabalho não permaneça nos demais anos, não há garantia de aprendizagem. "Se o processo ficar estagnado, a criança não vai evoluir", destaca.



Ensino para os menores

No Colégio Nossa Senhora de Sion, em São Paulo (SP), as duas estratégias são colocadas em prática: os alunos começam a ter aulas aos 4 anos e ficam mais tempo expostos à língua inglesa. São quatro aulas semanais de 50 minutos cada. "Usamos didática lúdica e baseada em situações concretas para a captação do conhecimento ser significativa e prazerosa", diz Maria Bernadete Silveira, coordenadora pedagógica da educação infantil.

Arthur Marques, que cursa a 4ª série do ensino fundamental no Colégio Paulistano Henri Wallon, aprendeu a partir de jogos de memorização as primeiras palavras em inglês, aos 4 anos, em outra escola. "Hoje, ouvimos CDs em inglês e temos de responder perguntas da professora também em inglês", conta Arthur, que ficou frustrado por não ter compreendido totalmente os norte-americanos em recente viagem à Disney. "Quero entender tudo", diz.

Nesses casos, os pais costumam investir em escolas especializadas no ensino do inglês. Mesmo assim, são comuns alunos prestes a deixar o ensino médio que não se comunicam fluentemente.

É o caso de Letícia Gerola, aluna do 3º ano do ensino médio do colégio Marista Arquidiocesano. "Mesmo tendo estudado sempre em escola particular de qualidade e frequentado cursos extracurriculares, meu inglês só ganhou fluên­cia depois de um intercâmbio no Canadá, onde ampliei bastante meu vocabulário", conta Letícia.

A falta da oralidade justifica a debandada geral dos estudantes para os cursos extracurriculares: "Essa visão pode ser explicada se entendermos a expressão oral como parte visível da aprendizagem de uma língua estrangeira. Como consequência desse pressuposto, a sociedade espera que a habilidade da fala seja desenvolvida até a excelência em um curso de inglês", explica Marília Briza Negrini, professora e coordenadora do departamento da língua do Dante Alighieri.



Professores em formação

A consultora de educação Renata Quirino está trabalhando na formação de professores que atuam­ no primeiro ciclo do ensino fundamental da rede municipal de São Paulo. Seu principal objetivo é fazer com que as aulas da rede sejam todas dadas em inglês. "Nossa proposta é nova: queremos vivenciar a língua dentro da própria língua - fazer contação de história, música, tudo em inglês, o tempo todo. É um processo lento, que vai levar um bom tempo", admite.

Rose Feba, professora da Escola Estadual José Polli, de Itupeva (SP), diz que as escolas públicas paulistas estão proporcionando cursos de inglês on-line e presenciais inteiramente gratuitos para seus alunos. "Em paralelo, a Secretaria Estadual de Educação oferece muitas oportunidades de formação de professores", acrescenta Rose.

O aprimoramento de mestres da rede pública de ensino também é observado em pós-graduação oferecida pela Cultura Inglesa em parceria com a PUC-SP. O programa conjunto ainda promove o curso via internet Teacher's Links, de aperfeiçoamento pedagógico. "Já atendemos 5,8 mil professores de inglês de escolas públicas, estaduais e municipais. O problema é que, por conta da carga de trabalho que têm em suas escolas, alguns professores deixam o curso antes do fim", lamenta Maria Antonieta Celani, coordenadora do projeto.

"De modo geral, o inglês no Brasil melhorou. Apesar dos obstáculos, é viável ensinar a língua estrangeira na escola regular, desde que fiquem claros os objetivos. A orientação da Secretaria de Educação de São Paulo não é que o aluno saia falando inglês da escola regular, mas que ele tenha contato com a língua, que ele absorva aspectos de uma nova cultura", afirma Glaucia Ferro, professora de educação da USP. "O aluno tem de sair da escola com uma compreensão global, tanto da linguagem escrita, quanto da linguagem falada, sendo capaz de participar do mundo multilíngue e multimídia", acrescenta.

Sobre a diminuição da proficiên­cia de inglês, revelada pela pesquisa de intercambio EF, a professora aponta as diferenças entre o Brasil e a Europa, por exemplo. "Nosso país tem uma desvantagem geográfica. Na Europa, as pessoas têm contato com outras línguas mais facilmente, por conta do deslocamento entre os países", defende. Glaucia acredita que a amostragem do estudo é muito heterogênea - de 18 a 50 anos - e o fato de os testes terem sido aplicados pela internet pode ter contribuído para o mau resultado. O caminho para aprendizagem de qualidade deu saltos, mas vai além da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016.





Sem domínio da língua


A percepção de que os brasileiros falam mal o inglês foi comprovada em pesquisa da empresa de intercâmbio EF, realizada entre 2009 e 2011, e divulgada no ano passado: o Brasil está em 46º lugar do total de 54 nações pesquisadas no que se refere ao domínio da língua inglesa.

O nível de habilidade no inglês foi medido a partir de três testes on-line: dois não adaptativos - disponíveis gratuitamente a qualquer pessoa - e baseados em 60 e 70 perguntas, respectivamente. O terceiro, de nivelamento, foi aplicado na inscrição dos cursos da EF e consistiu na aplicação de 30 perguntas, cada uma vinculada à outra pelo grau de dificuldade. Em todos os testes, foram testadas habilidades em gramática, vocabulário, leitura e audição. Os participantes fizeram os testes a partir do próprio computador, em casa. Foram incluídos no estudo países com um mínimo de 400 participantes.

Outro indício da dificuldade do brasileiro com língua estrangeira foi o lançamento, no final do ano passado pelo governo federal, de um programa de aperfeiçoamento da língua inglesa para os estudantes que queiram fazer intercâmbio pelo programa Ciência sem Fronteiras, que propicia bolsa para alunos brasileiros que queiram estudar no exterior. A pontuação mínima exigida na prova de inglês para participar do programa também foi reduzida. 




Diferentes Brasis


Obstáculos para ensino da língua inglesa não são apenas qualitativos. Segundo dados de 2010 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mais de 72,3 mil escolas de ensino fundamental nacionais ofereciam inglês na sua grade curricular. Em 2011, números do Inep apontavam alta para 74,7 mil. No entanto, em algumas regiões houve redução no número de colégios que oferecem o idioma, como observado nos estados do Amapá, Ceará, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.









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